Sorriso Falso

Estranho, realmente estranho e parece que só eu que acho!

Desde que me lembro, sou incapaz de exibir os dentes de forma não espontânea para uma fotografia. Me causa estranheza, até mesmo incômodo,  ver a naturalidade com que isso acontece.

Não, não é absurdo eu sei, o mundo tem grandes mazelas e problemas realmente sérios, (religião por exemplo) mas este é como uma lasquinha de madeira embaixo da unha, sabe? Coisa pouca, mas incomoda.

Talvez exista uma origem lógica para tal hábito como os escravos mostrando dentes para o comprador ou uma explicação da antropologia, psicanalise, filosofia e etc, algo como a necessidade de se mostrar feliz para simbolizar sucesso na vida ou minimizar os fracassos, enfim, não passa de um sorriso falso que veremos aos montes nos “faces da vida”.

A Saga dos Doi$ Conto$

Lá estava eu, de pé sob um sol escaldante, a sede em seu ápice deixava a nítida impressão de que meu interior era uma mistura de farofa pronta e muro chapiscado. Nos bolsos a carteira com dois contos e o cartão de ônibus.

Anos atrás a nota azul seria uma dupla de verdes com as quais eu poderia comprar dois frangos assados ou quatro ovos Kinder. Boa época em que a passagem era 0,45 R$ e 100 R$ era muito dinheiro.

O tempo passou e continuava passando, eu esperando o coletivo sem saber se arriscava entrar na lanchonete e gastar aproximadamente 80% de meu reduzido capital em uma garrafa de água mineral. “Só tem gasosa” diria a garota atrás do balcão, aquela com a boca pequena demais para os 800 dentes que parece ter. Odeio gasosa mas gosto menos ainda da garganta seca e muito menos ainda de ter só dois frangos na carteira.

“Isso não é dinheiro de homem” a vó dizia para o rapaz sorridente que respondia “Dou a volta ao mundo com dois contos”, na época, duas passagens de ida e duas de volta e ainda sobravam 0,20 R$! Agora, o mundo é bem maior, muito mesmo.

Quando foi que comi areia? Se o corpo humano é 70 % água o meu era só 20 e se eu soubesse onde estavam, abriria e beberia, 1% por gole para não acabar rápido! 

Maldito calor, e eu com 2 contos, vai gasosa mesmo!

Piada ruim…

Olhe bem a imagem, mais precisamente, o horário…


80% às08:23…para quem se levanta às 06:30 e gasta uns quarenta minutos se arrumando, mais uns 15 comendo, 6 minutos indo até o ponto de ônibus e pega serviço às 8:00 horas…quanto tempo restou  para consumir 80% do pacote?

Hora de cogitar um upgrade no plano kkkkk!

Fim

Estranho o modo como as coisas acabam, simplesmente deixando de ser…realmente, nada é eterno, mas enquanto existe nutrimos uma esperança de que seja. Mas acaba…

Seria bom se houvessem motivos fortes, decisões heroicas, sacrifícios…mas a grande maioria das coisas da vida, inclusive ela, não tem roteiro, não segue a jornada do herói, não sobrevive aos enormes desafios como se espera que fizessem.

Seria maravilhoso se em dadas situações fôssemos como um Balboa, sofrendo e pedindo mais socos: “Bate! Bate!” Com a certeza de não ser derrubado, muito machucado, mas com postura de campeão, pronto para mais um direto e preparando o contra golpe.

Não é assim, não tem Eye of the Tiger, falta Glory of Love…é só o the end, sem tempo para reagir, sem forças para se reerguer, sem contagem regressiva para o continue…

Apenas o fim.

Sem ideia…

Vontade de escrever eu tenho, só me falta o motivo, o tema, uma inspiração genuína. Quando tal desastre acontece, a mim só resta encarar a folha (específicamente hoje, um editor de textos!), e tentar extrair algumas gotas do suco de ideias que está quase no fim…quem sabe consigo uma semente e dela brote uma enorme árvore de frutos brilhantes para que sejam feitos litros desta bebida?

De qualquer forma, não parece que vai acontecer agora, imediatismo atrapalha, é preciso paciência para uma boa colheita!

Abraços!

A Velha

Aquele era um dia qualquer, mais uma vez eu estava no ponto de ônibus, sozinho por ter extrapolado em alguns minutos o horário de sair da cama. Da mesma forma o transporte parecia ter dormido um pouco mais.Olhei o meu relógio, eram oito e vinte, a rua vazia à minha frente não combinava com o horário. Seria um feriado? Ou talvez meu relógio estivesse errado. Foi no momento em que este estranhamento me atingiu que senti sua presença.

Virei o pescoço e percebi a velha, seu rosto descarnado deixava perceptível o contorno dos ossos, os olhos fundos e estranhamente escuros me fitavam. Desviei o olhar realmente incomodado.

Voltei a olhar o relógio, oito e vinte…estava parado? Não…parecia funcionar, mas os segundos no mostrador digital passavam: cinquenta e um, cinquenta e dois, cinquenta e três…cinquenta e sete, cinquenta e um. 

O relógio não funcionava, mas não era só ele, o mundo ao meu redor parecia morto…morto…foi quando pensei na palavra que me dei conta…eu sabia quem era a velha.