Amor à primeira vista!

Se sentia como se não devesse ter levantado da cama, mesmo o colchão sendo velho e deixando o corpo todo dolorido.

As noites passavam tão rápido como os momentos felizes que ficavam cada dia mais distantes no tempo.

Seguiu até o ponto de ônibus, foi quando a viu, amor à primeira vista, o brilho no olhar era cativante e sua feição demonstrava a mesma solidão que ele sentia, aproximou-se e a trouxe aos seus braços, ela não ofereceu resistência, como se já o conhecesse, lambeu-lhe o rosto e balançou o rabo alegremente.

Não foi ao trabalho, ao inferno com o patrão, a meses prometera um aumento e a única coisa que cresceu foi a quantidade de tarefas, inventaria uma desculpa qualquer, ele precisava cuidar de sua nova amiga.

Ela estava limpa, tinha uma coleira cor de rosa que se destacava em meio aos pelos de um tom creme. Deu a ela o que comer e passou toda a tarde brincando e curtindo a companhia da cadelinha.

No dia seguinte, tentou se levantar sem acordá-la, mas foi em vão, se separaram com dificuldade, mas o dia estava melhor, essa impressão durou até que chegasse ao ponto de ônibus e visse ela novamente, em uma bela foto no cartaz de procura-se.

Passou todo o dia criando coragem, talvez devesse ficar com ela, o destino os fez se encontrarem, se o dono a deixou fugir não era bom, tentou em vão arranjar uma justificativa que o livrasse do peso na consciência, mas não conseguiu.

Telefonou e combinou a devolução, por ironia, no mesmo ponto onde a encontrou e viu o cartaz. Caminhar com ela nos braços foi difícil, a dona ainda não estava lá, pensou em fugir, foi quando a viu, caminhando em sua direção com a roupa que ela avisou que usaria…foi amor à primeira vista.

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Morte na Praia (O Corpo)

O tempo estava ruim, nuvens escuras anunciavam chuva, mas resolvi caminhar bem cedo na praia, com meus chinelos nas mãos para deixar os pés em contato com a fria areia, o som das ondas me fazia relaxar até o momento que soltei um palavrão, maldita tampa de cerveja, achei melhor me calçar de novo.

Olhei o horizonte, pode parecer estranho mas, mesmo nublado, me pareceu mais belo que nos dias ensolarados, segui adiante, e contornei uma pedra grande, por um instante pensei ter flagrado uma garota fazendo topless, mas ela estava muito quieta, desmaiada? bêbada? Morta! A areia tinha sangue.

Quem faria algo assim com tão bela garota? E aquele corpo? Nem mesmo um artista grego da antiguidade seria capaz de esculpir tal perfeição, curvas e volumes genorosos, que belo corpo.

Não percebi quando outros apareceram, silenciosos, atônitos, a olhavam como um moleque que encontra seu brinquedo estragado, tinham nos olhos a vergonha de admirar uma beleza morta.

Ah, aquele corpo, mataria de inveja a garota de ipanema e inspiraria dezenas de belas canções sem que fosse possível retratar seu real esplendor.

Até mesmo os policiais pareciam pesarosos com aquela cena, nos comentários da multidão que se formou, aquela era uma prostituta da região, bem, não poderia ser diferente, um corpo como aquele tinha mesmo que ser vendido, não dava para ser ter algo assim de graça.

Passados alguns dias do ocorrido, uma manchete de jornal pôs fim ao mistério da morte da prostituta: Presa a assassina da praia.

O Medo da Morte

A única certeza da vida é a inevitabilidade de seu fim, gastamos muito de nosso tempo imaginando o que nos aguarda depois da existência, religiões afirmam ter a resposta em seus deuses hipócritas e contraditórios, vendem a ilusão que a maioria quer aceitar e por mais que em seu íntimo aquilo não faça sentido, eles tem medo de perguntar, preferem a falsa certeza à verdadeira dúvida.

Eu temo a morte, não por temer que o paraíso negue meu visto de permanência, e sim por ela calar minhas palavras, por me fazer deixar de sentir o vento de encontro ao rosto, suave como uma carícia feminina ou a queda de uma pluma.

O medo da morte é real, crenças, santos, deuses e outros não tornam seus seguidores imunes à ela, um fantasma que nos persegue com a calma de quem tem a certeza de que um dia nos alcançará.