Vida, Bandida Vida: A Estagiária – Capítulo I

O tormento começou no trabalho, até então ele tinha uma vida tranquila como sempre desejara. A mulher, esposa maravilhosa, cuidava da casa e dele muito bem. Filhos ainda não tinham, a grana era curta, quem sabe no fim do ano viesse a promoção?
O carro velho continuava o mesmo, assim como as roupas surradas da rotina do labor.
Não havia surpresa, o plano perfeito para vida, assim como a equação que a sociedade sempre o ensinou: trabalho (duro) + família = felicidade. Faltava pouco para conseguir, ele sentia isso mas nunca reparou que a sensação seria sempre essa e que a equação passada carecia de outros elementos, apenas acreditava como a maioria e vez ou outra jogava na sena.

Estava tudo bem até a chegada dela, a estagiária, no auge dos seus dezoito anos, loira como toda “tentação de satã” deve ser, olhos azuis como o céu da forma que todo anjo deve ter, a fala melodiosa saindo da pequena e carnuda boca rosada como o canto de uma sereia, pronta para destroçar em rochas o navio de quem acreditava navegar águas seguras.
Se fosse escrever (coisa que não fazia desde o ensino médio) sobre a chegada dela, não saberia se descreveria como um furacão que sacudiu todo homem da repartição ou como uma surpresa ao pé da árvore de natal, daquelas discretas, embrulhada em um papel brilhante vermelho com laço verde tão cintilante quanto o outro.

Herói, evitou a proximidade, aquele tubarão com cara de peixinho dourado não cortaria a superfície de suas águas calmas com sua barbatana. Aquele era um cara 99,9% imune aos encantos daquela ninfa dos sonhos…malditos 0,01%.

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A vida que me prende

Hoje me levantei, fiz as mesmas coisas que fiz ontem, talvez em outra ordem, não lembro, mas, automaticamente e sem pensar, por ser exatamente o que faço de segunda à sexta-feira, até os atrasos e lamentações tem sido os mesmos. Qual o sentido disso? Talvez para os religiosos seja fácil suportar, para eles é como esperar a chegada das férias, mas, promessas vazias não me enganam, estou aqui para viver e sinto que não tenho feito isso.

Me alimento com o que sei que me faz mal por não ter tempo ou ser preguiçoso demais para me cuidar, sei que preciso de atividade física, mas até a mental tem me cansado, vivo um teatro, onde o papel já está definido e não se tem espaço para o improviso. A arte é vida mas a vida está longe da beleza expressada por um artista.

A morte um dia chegará, estarei eu satisfeito com o que fiz até lá? Meu maior temor não é encontrar o fim, mas ser esquecido, isso apavora. Quantos bilhões de anônimos passaram por este planeta? Não quero ser um deles. Pode parecer confuso mas, tampouco desejo ter fama. Falo desta fama efêmera, da “modinha”, enfim, quero significar algo na vida das pessoas e esse algo é o que ainda não tive o prazer de descobrir.

Estou preso à vida sem acreditar que exista algo além da morte, não verei o que acontece aqui quando aqui não mais estiver. Não serei alma, não serei estrela, não encontrarei paz em um paraíso nem tormento eterno em um mar de chamas, meus êxitos serão aqui, os sofrimentos também. A vida que me prende é um tesouro e um lamento, uma única chance de fazer dar certo.

Reflexos – Completo

A nova casa era linda, muito grande, eu teria agora um quarto só para mim, com uma grande janela que dava para rua. Aquele era um bairro calmo, do jeito que o papai queria, eu e meu irmão poderíamos brincar na rua.

No dia seguinte fomos para a escola nova, eu estava na sétima série, meu professor de história se parecia com o Senhor Burns do desenho dos Simpsons, segurei para não rir.

Na hora do recreio, duas garotas se sentaram comigo, não entendi a cara de espanto delas quando falei que tínhamos nos mudado para aquela casa.

Durante todo o dia me perguntei qual seria o motivo, talvez fosse uma casa muito cara, afinal, era a maior nas redondezas e ficaria maravilhosa após as reformas.

No final de semana, resolvi terminar de organizar minhas coisas, eu tinha um grande armário embutido onde podia guardar muito mais do que eu possuía. Ao colocar alguns livros, percebi no fundo, um quadrado, parecia desenhado, mas, ao passar o dedo, percebi que havia uma  fresta, tentei puxar, ele cedia pouco, se movimentando para os lados. Minha mãe nos chamou para comer, e deixei de lado o interessante quadrado.

Mais tarde, com ajuda do meu irmão, descobri que era uma gaveta secreta, ela se abriu quando ele pressionou o quadrado, era um mecanismo de pressão, ficamos muito excitados com aquilo, mas a empolgação diminuiu quando vimos que o que estava guardado ali era apenas um par de chaves velhas e enferrujadas que não combinavam com nenhuma fechadura da casa.

O mistério do quadrado parecia resolvido, até o dia em que encontrei uma fechadura onde ela não deveria existir.

No porão, escondida no canto de uma parede estava a fechadura, subi as escadas correndo e peguei as chaves na gaveta secreta, estava muito curiosa, outro segredo na casa, o que seria?

Coloquei a chave e girei, tenho que admitir que tinha um pouco de medo, o canto onde estava era pouco iluminado. A princípio houve resistência, mas aos poucos a chave foi girando e uma porta oculta se abriu para revelar algo inesperado, era um grande espelho, do tamanho da parede, com uma fechadura no meio e um aspecto muito antigo, seria outra porta? O mais estranho é que eu não tinha reflexo. Usei a segunda chave, ela girou, escutei um clique, mas nada aconteceu, apenas senti um calafrio.

Os dias que se seguiram foram os piores de nossas vidas, por algum motivo obscuro eu não conseguia falar sobre o espelho com ninguém, por mais que quisesse contar, quando me aproximava das pessoas eu simplesmente esquecia este assunto.

Quatro dias após eu tentar abrir a estranha fechadura, meu irmão foi encontrado caído na frente da casa, ele estava desacordado e foi levado ao hospital em uma cidade vizinha, uma garota disse que o viu se esticando para fora da janela do sótão, ele parecia tentar alcançar algo que ela não conseguiu ver, quando se desequilibrou e caiu, uma queda de quase dez metros.

Todos os dias eu descia até o porão e olhava o espelho, em um deles, me surpreendi ao ver nitidamente um pássaro preto no reflexo, ao olhar para trás, ele não estava lá, procurei pelos cantos e não o encontrei, pensei que fosse apenas uma impressão, mas ao chegar ao meu quarto, me deparei com um pássaro negro como o do espelho, morto no carpete.

Não entendi o que estava acontecendo, o que significava aquilo, mas as coisas ficaram claras quando, no dia seguinte, vi meu irmão no reflexo.

Ele ainda estava em coma no hospital.

Horas depois de ver meu irmão no espelho, ele morreu. Fui a última a saber, mas no fundo, já temia que acontecesse, já que o pássaro que apareceu no espelho teve o mesmo destino. Eu continuava sem conseguir falar sobre isso, por algum motivo estranho, era impossível falar sobre ele.

Meus pais não falaram muito após o enterro, minha mãe culpava meu pai por nos ter tirado da antiga casa e também por não ter colocado as grades na janela logo após a mudança, eu a ouvi falar sobre isso com minha tia ao telefone. Ele por sua vez, permanecia trancado em seu escritório, dias se passaram sem que eu o visse, até que ele apareceu, no espelho do porão.

Após tentar abrir a fechadura do espelho, meu mundo virou de pernas para o ar, perdi meu irmão e logo depois meu pai, que foi encontrado em seu escritório após uma overdose de antidepressivos e bebidas, aquilo não parecia real, logo ele que não gostava de tomar remédios.

A dor era enorme, minha vó veio passar alguns dias conosco e sua presença nos trouxe algum conforto.

Os vizinhos nos olhavam com pena, mas, estranhamente, não se aproximavam da casa, alguns paravam minha mãe e ofereciam ajuda, mas, mesmo sendo convidados, nunca vinham.

Eu sentia que problema estava no espelho, eu sabia mas não conseguia falar sobre ele com ninguém, resolvi escrever, mas ao ler o texto, duvidei de minha própria sanidade.

Só existia uma solução e decidida, desci novamente ao porão levando um martelo, quando parei de frente à ele não tinha ninguém no reflexo, mas, um pequeno ponto veio se aproximando, depois outros, aos poucos percebi que eram pessoas, muitas, algumas com roupas antigas e outras nem tanto, vi meu irmão e meu pai, meu coração acelerou e deixei cair o martelo quando percebi que eu estava ao lado deles.