Vida, Bandida Vida: A Estagiária – Parte II

Estava estampado naquele rostinho de aspirante a deusa grega sua função no mundo, a destruição, de lares, de sonhos, de sono, de concentração, de desejos…afinal, que outra vontade poderia superar a ânsia de fincar ali sua bandeira como um astronauta da Apolo onze ao chegar à lua em sessenta e nove ou um alpinista que enfrenta todos os perigos e ignora o histórico de dezenas de mortes e membros amputados para atingir tal objetivo.

Ele compreendeu de uma nova forma a lei de ação e reação ao ver as mulheres enciumadas do local investirem tempo e dinheiro em roupas novas e toneladas de cosméticos. Nada capaz de transformar as já conhecidas faces em algo deslumbrante ao ponto de ofuscar a estrela do momento (Apesar da Avon afirmar o contrário). Semanas depois foi a vez dos homens (Sempre atrasados nas reações, o que evidencia que a espécie não foi extinta graças às atentas fêmeas) mas as melhorias se limitavam a barbas feitas e colônias fedorentas.

Até então passava incólume, era a gota de óleo que não se misturava a toda aquela água que rodeava e acolhia suavemente o tubarão, mas chegou o dia de testar suas convicções. Colocados lado a lado, ele, o exímio especialista em redação oficial, ela, a aprendiz distraída que ao perder um detalhe apoiava a palma da mão no joelho do mestre momentâneo para interromper e fazer perguntas. A cada toque, uma descarga elétrica percorria a espinha de nosso herói, o potencial energético daquele contato sendo comprovado por movimentos involuntários em uma extremidade oculta. O tema lhe escapava a mente, as palavras fugiam e a explicação se tornava insuficiente resultando em novas interrupções que alimentavam todo o sistema mais uma vez. A espada em riste, de forma deveras paradoxal, simbolizava o fim da brava resistência. O até então honrado guerreiro começava a sucumbir!

Texto qualquer

 

Este é Um texto que escrevi há algum tempo, não tem título mesmo e não quero me dar ao trabalho de escolher um.

 

Aquele dia foi o melhor da vida dele, acostumado a não ter o que comer, encontrou o que dadas suas condições, era um banquete.Dentro da embalagem metálica amassada, um bife, o sabor ainda melhor do que se lembrava, arroz, feijão e batatas, nada estragado.

Comeu com pressa, queria ter uma mesa e uma cadeira, sentar e saborear aquela dádiva que no passado seria atribuída a um deus bondoso, mas agora já sabia que a bondade desse só atingia os ricos.

Não foi só a comida que tornou especial aquele dia, uma senhora na rua o olhou e disse: Bom dia! Aquelas palavras tão comuns para outros, para ele significavam mais, ter sua existência certificada por alguém era bom, daquela forma e não a cara de desprezo padrão que recebia quando acontecia de olharem para ele.

Sentiu-se quase um cão. Absurdo dizer isto? Não, apenas a realidade, os animais despertam algo bom nas pessoas que uma mão estendida a pedir ajuda não consegue.

Vida de sofrimento, qual era seu pecado? Aos nove anos parou de pedir a deus, sabia que o único pão encontrado mofado no lixo não se multiplicaria para toda a família assim como o pouco dinheiro que o pai tinha e entregou ao pastor não voltou como bençãos, nem um saco de arroz como o pai reclamava. Agora deixava tudo no bar, não era bastante para deus nem para comida, mas dava para pinga.

A mãe desapareceu durante a noite, cansada de apanhar do marido bêbado ou morta e escondida pelo mesmo como alguns suspeitaram. Nunca soube a verdade pois a mãe nunca apareceu viva ou morta e o pai…o pai foi seu primeiro homicídio.

A maldição (Parte 1)

Aquele era um dia de diversão, os amigos acampariam perto de uma lagoa, um lugar de natureza preservada que sabiam ser proibido, mas só as placas estavam por ali e não eram o suficiente para impedí-los.
A trilha era difícil e cansativa, mas o local valia o esforço, ao menos era o que imaginavam, sem saber que a beleza do destino físico não correspondia ao tão próximo destino de suas vidas.

Continua…

Não (Parte 3 – Final)

Aos poucos imagens de sua vida se formavam, muitas coisas que não se lembrava quando vivo, os braços acolhedores da mãe em seu primeiro contato pós nascimento, a agradável voz do pai que o confortava, o quarto sem luxo mas com muito carinho.

Aspectos desconhecidos de sua vida se tornavam claros e ele agora a assistia com uma mente não limitada pela parca capacidade humana, as pessoas ao seu redor tinham dimensões e motivações que facilitavam o entendimento de suas atitudes, não se resumiam a boas ou más pessoas.

Ele revivia importantes momentos de sua existência e aprendia ainda mais com eles, como se em vida tivesse experimentado apenas a ponta de um iceberg, passou a ser capaz de extrair o máximo de situações tidas como irrelevantes.

Sentiu a alegria da infância e o inocente pesar de seus amores não correspondidos de adolescência, descobertas e sonhos ainda não minados pelo peso da vida adulta que se mostrou um fardo repleto de convenções sociais, frases prontas, datas para guardar e compromissos inadiáveis mas sem importância real.

Aquela retrospectiva lhe mostrou muitas de suas escolhas, tentativas de fuga da pressão dos dias que considerava pesados mesmo ainda sendo jovem e este talvez fosse o problema, ainda não estava preparado para o que viria, e as escolhas erradas o conduziram à depressão, era como choro do recém nascido que sai de um mundo de segurança para o desconhecido, mas não podia abrir a boca ao mundo, não é o que se espera de um adulto.

Não era o final que definiria sua história, o trajeto fora escolhido anos atrás e as diversas rotas de fuga de um triste destino ignoradas.
Não foi a vida a responsável, não foram os maus amigos, não foram as cobranças…Ele agora sabia, não…realmente não, não era o dedo que puxara o gatilho o responsável por seu fim, eram suas escolhas e todo o caminho que trilhara.

E foi quando compreendeu isso que lembrou de ter comprado a arma…

Não (Parte 2)

Ele sentia que não tinha tirado sua vida mas, ainda estava confuso como se aquilo fosse um pesadelo do qual não conseguia acordar.

Viu todo o trabalho da polícia, a maioria deles tão habituados à violência que pareciam estar passeando e não vendo o corpo de um jovem morto com apenas dezenove anos.

Não tinha lembranças que justificassem a cena à sua frente, na veerdade, não tinha nada além do que via. Seu corpo? Não, este não o pertencia mais, estaria em breve embaixo da terra para ser devorado, digerido e defecado pelos vermes, a carne consumida como em um grande banquete, então restariam os ossos que por tanto tempo o sustentaram e um dia, mesmo estes sólidos pilares deixariam de existir.

A morte, a pavorosa e temida morte chegou, mas não foi acidental e para ele, tampouco teria sido o causador.

Não tinha o que ver mais ali mas não saiu do lugar, esta definição não se aplicava mais, estava além da física, não se movia, estaria onde quisesse mas queria lugar nenhum, apenas suas lembranças mas elas não vinham.

Em seu velório a tristeza era enorme, cochichos maldosos, pessoas cumprindo um papel e tentando parecer sentir mais do que realmente sentiam enquanto outros, amigos leais e família sofriam com a precoce despedida e pareciam querer acompanhá-lo.
– Não! Eu não fiz isso!
Sua mente repetia sem parar e ele sabia que precisava descobrir a verdade, tinha que lembrar.

Continua…

Hoje é o seu dia…

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“Hoje é o seu dia, que dia mais feliz…”

Ou ao menos era pra ser, meu aniversário, comemorar mais um ano de sobrevivência, trabalhando, estudando, seguindo regras, acordando na hora, cumprindo prazos, vestindo a roupa da moda, consumindo, indo à igreja (nunca li a Bíblia…um livro que começa com bonecos de barro e cobras falantes não me prenderia a atenção, não é mesmo?), pagando contas e impostos, votando em pessoas que não confio, alimentando meu cachorro… é, finalmente algo bom, alimentar o duque era um motivo para comemorar minha vida…

“Hoje é o seu dia, que dia mais feliz!”